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Escrevendo a Clínica: Quem é Alice Miller?

por Maria Inês Barros Brant Carvalho*

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Citar Alice Miller não é tão fácil quanto citar Freud. Ambos encontraram na escrita a possibilidade de exprimir suas ideias com uma fidelidade jamais encontrada, ou melhor, alcançada. Falam de suas experiências pessoais, e isso não é para qualquer um.  Quero dizer, contudo que é preciso muita coragem para provocar os “demônios”, provocando inclusive os mais Letrados e os Sacramentados. Em 1979 estreou como escritora lançando o livro publicado na Alemanha, O Drama da Criança Bem Dotada. Sendo o seu último lançamento no Brasil em 2011, A Revolta do Corpo.

Não é fácil apresentar esta psicanalista nascida em 1923 de origem polonesa, radicada na Suíça, falecendo em abril de 2010, na França. Estudou Filosofia, Sociologia e Psicologia na Basiléia e completou sua formação psicanalítica em Zurique, e como Psicanalista praticou a clínica por mais de 20 anos.

Embora frustrada pela falta de oportunidade de conhecê-la pessoalmente, eu acompanhava seus escritos tomando café da manhã, antes de iniciar minhas tarefas cotidianas, como se lê diariamente um jornal. Ela, octogenária, respondia frequentemente as cartas que recebia de seus leitores e seguidores do mundo ocidental; sua equipe tinha a tarefa de publicá-las em seu site www.alicemiller.com. São tantas as informações em seu site, que é preciso, com muita diligência, acompanhar o seu clamor. Apenas sei, através de suas citações em seus links de entrevistas, que foi recomendada a se desligar da Associação Psicanalítica Internacional de Berlim por não seguir os dogmas implantados pela doutrina freudiana.

De fato, falar de Alice Miller é transgredir o tempo todo em pensamentos, atos e palavras. Ela buscou compreender a dor humana a partir de um princípio único, o Trauma da Infância. Sintetizando o seu depoimento que acompanhei através de seu site e de suas obras literárias, venho a compreender que a Teoria do Trauma deixada de lado por Freud, foi por ela resgatada pelo simples fato dela acreditar que seus pacientes, quando contavam cenas de suas infâncias em que envolviam maus-tratos, violência, abuso sexual e outros tantos relatos de sentimentos de humilhação e culpa, de fato havia nessas lembranças possibilidade de sobrevivência, estratégica narcísica fundante na estrutura da personalidade de uma pessoa. O fato marcante citado pela autora é que o sujeito, impulsionado pelo trauma rumo à sobrevivência de sua “alma” – estrutura psíquica – é, portanto, tomado pela compulsão à repetição. Alice Miller não cita em nenhum momento a Pulsão de Morte, embora, eu particularmente percebo que ela não a desassocia. Ela cita inúmeros exemplos biográficos, de Hermann Hesse à Hitler, e outros tantos quanto foram possíveis para ela compreender, em suas trajetórias marcadamente traumáticas. Destaco aqui a visão que ela tem do escritor Hermann Hesse e outros artistas. No caso de um mestre da literatura como Hermann, ela interpreta suas obras à luz do que se pode chamar de incomplacência de pais em relação a filhos “bem dotados”. Filhos estes que foram vítimas de uma violência silenciosa por parte daqueles. Daí a dizer que muitos desses artistas têm de atravessar um inferno pessoal extremamente rigoroso para usufruir de sua arte, mas que muitas vezes, mesmo com o sucesso atingido, não sentem a felicidade.

Em seu livro “O Drama da Criança Bem Dotada”: “(…) Hermann não era um problema para os pais apesar de sua riqueza interior, mas por causa dela. Frequentemente, os dotes de uma criança (intensidade dos sentimentos, profundidade, curiosidade, inteligência, atenção) confrontam os pais com conflitos que eles há muito tentam manter a distância por meio de regras e normas de conduta. Dessa maneira, essas normas de conduta devem ser honradas à custa do desenvolvimento do filho. Então, chegamos à situação aparentemente paradoxal, em que mesmo os pais que se orgulham e até admiram seus filhos talentosos são forçados a desprezar, reprimir, destruir o que têm de melhor, pois o mais autêntico existe naquelas crianças (pag. 96).” Mais adiante ela diz: “A evidência de que a Hesse não faltavam coragem, talento ou profundidade de sentimentos está clara em suas obras e em algumas de suas correspondências, (…). Mas a resposta de seu pai, as anotações da mãe e as passagens de alguns livros dele, mostram-nos claramente como o peso de seu drama infantil o esmagava. A despeito do enorme reconhecimento do público, do sucesso e do prêmio Nobel, Hesse sofreu na maturidade a trágica e dolorosa sensação de ter sido separado de seu verdadeiro self, diagnosticada secamente pelos médicos como depressão.”

Ainda hoje vemos analistas incapazes de acompanhar as dores de seus pacientes, simplesmente por não suportarem, eles mesmos, atravessar por este “corredor do inferno”.

Toda a trajetória teórica que Alice Miller apresenta, com evidências no confronto com a realidade, vem sendo por mim “contabilizada” atualmente através da contribuição diária de um psicanalista, o qual tem lançado mão com muito esforço para alcançar lembranças “proibidas de serem lembradas”, pois para o corpo físico envolve muita energia, tanto minha quanto a dele. Afinal, este “templo” no qual a “alma” habita evita a qualquer preço a dor de suportar as más recordações. Embora esta tentativa seja em vão, pois, em seu livro “A Revolta do Corpo”, não sobra dúvidas do quanto somos chamados à integração.

A seguir apresento as obras de Alice Miller publicadas no Brasil desde a década de noventa do século XX e um breve comentário embasado em experiências pessoais praticadas na clínica e no cotidiano.

O livro que abriu de certa forma a porta da percepção e o reconhecimento de maus-tratos e violência praticados por pais, tios, vizinhos, professores que passaram pela minha vida e deixaram cicatrizes profundas foi

O Drama da Criança Bem Dotada – Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos”, Summus Editora em 1997, 2ª edição revista e atualizada.

O interessante para mim, no momento, dentre tantos os assuntos relacionados à educação que Alice Miller fala neste livro, é o fato de existir sim uma causalidade para a escolha da profissão de terapeuta. Ela nos apresenta um atributo peculiar da condição humana, a Sensibilidade. Pensar sobre o Narcisismo é reconhecer o fato de sermos dotados de “sensibilidades” às quais serão norteadoras de nossa vida futura, donde vem a surgir o conceito de Narcisismo secundário, em que as possibilidades de elaboração de eventuais traumas infantis tornam-se fundantes no desenvolvimento da formação da personalidade adulta, esta capaz de ocupar-se e preocupar-se para que a vida sócio-econômica-político-cultural se transforme em uma vida sustentável, ou seja, satisfatória e feliz, embora como citado acima, nem sempre alcançada. O que fazer com o que fizeram conosco é a regra do “jogo” quando formos convocados a viver a vida adulta, sendo que nela inclui saber reconhecer que podemos ganhar e perder, sempre. Posso garantir por experiência que uma vez ferido no nosso narcisismo, o processo pelo qual iremos vivenciar para a reparação das cicatrizes não será nada fácil, muito menos alegre e feliz. A passagem pela depressão, por exemplo, é inevitável e a coragem de vivenciá-la será a salvação para nos libertarmos das imagens muito bem armazenadas em nosso cérebro, porém inacessíveis à consciência, por isso tão confuso e irreconhecível o substrato do tratamento.

“A Verdade Liberta – Superando a cegueira emocional”, Editora Martins Fontes, 1ª edição 2004. Sua publicação original com o titulo EVAS ERWACHEN, em 2001.

Eu considero um privilégio ter entrado em contato com esta obra, pois Alice Miller mais uma vez supera a expectativa do leitor à procura de respostas para o inquietante sentimento de raiva e intolerância que prevalece no dia a dia do adulto, vítima de violências. Os castigos corporais e as “missões” (obrigações) políticas são alguns dos temas o qual ela aborda inclusive arguidora da Igreja. Sua revolta contra o silêncio da Igreja se dá no capitulo Cinco, sob o título “O silêncio da Igreja: As escolas religiosas de diversas fés cultivam a crueldade numa dimensão quase inimaginável e justificam toda forma de sadismo em nome de Deus ou dos profetas, apesar de estes nunca terem se pronunciado a favor de castigos (pag. 49). Mais a frente: Costumo receber cartas de pessoas de diversas partes do mundo, que me relatam o quanto sofreram com os castigos, físicos e outros, nos internatos católicos. (…) dirigi-me por meio de uma carta ao papa João Paulo II, pedindo-lhe que enviasse um apelo às futuras mães e aos futuros pais, alertando-os para os efeitos trágicos do espancamento de crianças. A resposta veio até Miller, mas talvez não como esperasse, sua decepção foi ainda maior “(…) Para manifestar sua grande simpatia pelos jovens, recentemente a Igreja teria canonizado um importante e sincero defensor da juventude, o padre Marcellin Champagnat, fundador da ordem dos Irmãos Maristas.” Justifica ela, através deste relato sobre o silêncio dos “agentes educacionais”.

Talvez a minha intenção de fazer um recorte pontual desta obra A Verdade Liberta, seja para admirar e ao mesmo apontar para o reconhecimento de sua capacidade de superação quanto à cegueira a qual ela mesma foi tomada durante muitos anos em sua vida praticando a psicanálise clínica. Em uma entrevista concedida por Alice Miller a uma jornalista da Eslovênia, ela relata seus traumas e sua superação. Abdicou-se da prática clínica depois de vinte anos para escrever a clínica, com a certeza de alcançar um público maior e realizar o feito de libertá-los da cegueira emocional – (eu me incluo neste público). Uma escritora que fez das maldades praticadas por sua própria mãe, uma retratação que alcança publicamente milhares e milhares de leitores pelo mundo afora através dos lançamentos traduzidos em vários países. Ela se apresenta por identificação projetiva e introjetiva em cada cena de dor relatada através da obra, como testemunha dos maus-tratos sofridos por muitos até os dias de hoje. E o que é mais importante no reconhecimento de sua superação é saber que muitos escritores, em outros campos também, conseguiram uma retratação consigo mesmo através de suas próprias obras.

O interessante nas obras de Alice Miller é conseguirmos compreender como se dá a passagem do Mal para a prática do Bem.

No Principio era a Educação”, Editora Martins Fontes, 2006, sendo o titulo original em alemão AM ANFANG WAR ERZIEHUNG, 1990.

Logo após a apresentação do índice nesta obra, ela apresenta algumas citações que representam a sua indignação quanto à maldade, por exemplo: Que alegria para os governantes as pessoas não pensarem! (Adolf Hitler). Nesta obra, Alice Miller praticamente apresenta com uma admirável desenvoltura o resultado de suas incontáveis pesquisas sobre pessoas que marcaram a história da humanidade nos últimos dois séculos. Apresenta Sylvia Plath, por exemplo, como uma vítima que não superou o seu sofrimento e sucumbiu. Assim como, a infância de Adolf Hitler, de ele ter conseguido com “êxito” se transformar no Mal Personificado. Interessante como ela retrata o domínio da prática do Mal no destino de Adolf Hitler, tendo como posição centralizadora para o seu desequilíbrio psíquico, porém, absolutamente convincente aos milhares de militantes de seu partido, sua Mãe e seu Pai. Varias pátrias foram solidárias à sua prática de extermínio de uma humanidade, que, diga-se de passagem, “escolhida a dedos”. Se pensarmos bem, ainda hoje convivo com um público intolerante, preconceituoso e sedento pela prática da maldade.

Destaco aqui a participação da psicanálise na vida de Alice Miller. Ela testemunha o trabalho psicanalítico profundo como contribuição na sua aguçada sensibilidade e a retomada de sua autoestima sem a qual jamais conseguiria publicar uma só palavra.

A autodestruição de uma pessoa enfraquece não só a própria família como também o conjunto social. Há tempos, não era de “bom tom” a exposição de tragédias principalmente o suicídio divulgado pela mídia. Havia de certa forma um conluio social que impedia esta prática jornalística.  A ideia, penso eu, embora inconsciente, era de conter o instinto de repetição. Interessante que essa prática do silêncio uma vez abolida, por um lado fortaleceu o Instinto de Morte, por outro enriqueceu a vida facilitando o diálogo sobre o discurso da “Educação”.

A criança passa por uma longa luta interna: o medo de perder a pessoa que ama ou permanecer fiel a si mesma, isto é, na luta para compreender a impropriedade da história, a criança nega a própria história, e com isso toma para si outra verdade, um falso Eu. Aquilo que poderia ser visto e julgado como impróprio, indecoroso, passa a não ser visto, portanto, Não Percebido. Os pais se mantêm na posição de Bem Amados e identificados na sua Bem Aventurança. Obedecer para a criança significa, nessas condições de opressão, sobreviver por si mesma. O narcisismo secundário que tomaria o lugar do narcisismo primário, por força da intimidação exercida, sucumbe cedendo a uma configuração onipotente e de liderança suprema. A intolerância, portanto é aprendida. Na visão de Alice Miller a criança Bem Dotada é tolerante, é benevolente e narcisicamente muito bem estruturada, entretanto, a Pedagogia Tóxica deforma a vida emocional de forma a impedir que sua autoestima seja organizada.

“Não Perceberás – Variações sobre o tema do paraíso”, editora Martins Fontes lançado no Brasil em 2006.

Esta obra foi publicada originalmente em alemão com o titulo DU SOLLST NICHT MERKEN por Suhrkamp verlag, Frankfurt, 1981. É estranho perceber que esta obra foi lançada no Brasil vinte e cinco anos após sua publicação na Alemanha. Nesta obra eu identifiquei questões relacionadas com a doutrina religiosa à qual fui educada e o quanto os dogmas inculcados em meu Ser foram prejudiciais.

Alice Miller retrata uma postura educacional que sustenta a pedagogia infantil, baseada na doutrina religiosa e define como uma Pedagogia Negra, em que se baseia no proibido. É proibido expressar a verdade e o reconhecimento dos maus-tratos. Todo o empenho de Alice Miller nesta obra se dá através da tentativa de defender a criança que vive reprimida dentro de cada ser humano que sofreu abuso físico e moral e procura através do processo terapêutico, levá-lo a descobrir sua verdadeira história. O drama da criança Bem Dotada, portanto, é aquela criança que não pode perceber as incoerências evidentes de sua educação e tem de se calar. O silêncio do adulto passa a ser um inimigo mortal que sobrevive à infância, embora seja através da compulsão à repetição que este adulto vai sobreviver à criança maltratada. De qualquer forma, Alice nos apresenta o tópico inconfundível sobre a incoerência na educação cristã. Ela, por assim dizer, rechaça a doutrina católica apostólica romana, e apresenta o quarto mandamento, como o pilar que sustenta a prática dos abusos praticados pelos adultos. Pois, é nele, que a criança Bem Dotada se apoia para não revelar e condenar a prática abusiva à qual viveu e sofreu.

“A Revolta do Corpo”, martinsfontes, 2011. Publicado originalmente em alemão com o titulo DIE REVOLTE DES KÖRPERS, por Suhrkamp Verlag, Frankfurt, Alemanha, 2004. Os tópicos presentes nesta obra são: Adultos vítimas de maus-tratos na infância – Saúde mental; Crianças abusadas – Saúde mental; Crianças – Maus-tratos – Aspectos psicológicos; Crueldade; Disciplina Infantil – Aspectos psicológicos; Medicina psicossomática; Pais e filhos; Psicanálise; Responsabilidade dos pais – Aspectos psicológicos.

Através de diversos exemplos minuciosamente pesquisados por Alice Miller, ela apresenta as consequências trágicas da obediência e o respeito receoso pelos pais: Dostoiévski, Tchekhov, Kafka, Nietzsche. Com um apurado senso crítico ela apresenta o tema principal de todos os seus livros: a recusa do sofrimento de nossa infância. Este é um fenômeno em que ela distribui os aspectos determinantes em suas obras. Muitas delas infelizmente não traduzidas para o português, embora seja possível reconhecer os conceitos aos quais ela se baseia e os que ela rejeita. Por exemplo, neste parágrafo, ainda no prefácio, ela afirma: “Para mim, o inconsciente de cada pessoa não é senão sua história, que, embora esteja armazenada em seu corpo em sua totalidade, somente permanece acessível a nossa consciência em pequenas partes. Assim sendo, nunca utilizo a palavra “verdade” em um sentido metafísico, mas em um sentido subjetivo, sempre relacionada com a vida concreta do indivíduo. Sempre falo da verdade “dele” ou “dela”, da história da pessoa em questão, que é sinalizada e atestada em suas emoções. Defino como emoção uma reação corporal nem sempre consciente, mas frequentemente vital, a processos externos e internos, como, por exemplo, medo de trovões, ou cólera diante da constatação de se ter sido enganado, ou alegria ao receber um presente desejado. Em contrapartida, a palavra “sentimento” significa mais uma percepção consciente da emoção. Portanto, a cegueira emocional é um luxo caro e, na maioria das vezes, (auto) destrutivo (pag. 10).”

A dureza com que Alice Miller retrata as doenças físicas como consequência inevitável da cegueira emocional, em parte incômoda, atinge como uma foice diante do “procurado”. A reação normal do corpo é reagir sempre quando ele é atacado: “Ele sabe o que lhe falta, não consegue esquecer as privações. O buraco existe e espera ser tapado. Contudo, quanto mais se envelhece, mais difícil se torna receber de outras pessoas o amor paterno que um dia faltou. Mas as expectativas não são abandonadas com o envelhecer, muito pelo contrário. Elas são apenas transferidas pra outras pessoas, principalmente para os próprios filhos e netos. (…) através da tomada de consciência desses mecanismos e reconhecendo a realidade de nossa infância da forma mais exata possível, eliminando o recalque e a recusa. (…) Podemos, agora, oferecer a nós mesmos a consideração, o respeito, a compreensão de nossas emoções, a proteção necessária e o amor incondicional que nossos pais nos negaram (pag. 15-16)”.

Este é o processo que “naturaliza”, como um conceito de saúde mental, o narcisismo secundário como uma forma saudável de trabalhar e viver.

Alice Miller é uma personalidade célebre. A edificação de suas obras só poderá ser citada pelo fato de Alice Miller ter conseguido atingir a “alma” de seus leitores, assim como Freud.

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Maria Inês Barros Brant Carvalho é psicóloga formada pela Universidade Paulista e psicanalista formada pelo Instituto de Formação e Pesquisa em Psicanálise Núcleo Távola, de Ribeirão Preto/SP.

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